"Eu li Viagem ao Centro da Terra. Agora deixa eu te contar."
[NOTA DA NORA]: Júlio Verne basicamente pegou um cientista obcecado, um sobrinho assustado, um caçador absurdamente tranquilo e colocou os três dentro da Terra. Porque aparentemente explorar a superfície já estava pouco interessante.
O professor Lidenbrock é o motor de tudo. Ele encontra um documento aparentemente impossível, descobre uma mensagem escondida e, antes mesmo de terminar de discutir se aquilo faz sentido, já está preparando as malas.
E isso é uma das coisas que mais gostei nele.
Lidenbrock não é exatamente o personagem mais sensato da história. Na verdade, em vários momentos eu queria segurar esse homem pelo colarinho e perguntar: “Você percebeu que está propondo descer até o centro da Terra, certo?”
Mas existe uma coisa fascinante nele: ele não aceita o desconhecido como uma parede. Para ele, é uma porta que ainda não foi aberta.
Axel funciona como o contraponto perfeito. Ele tem medo, questiona as teorias, pensa nas consequências e, principalmente, pensa na possibilidade bastante razoável de todos morrerem.
Ou seja: alguém nessa expedição precisava ter bom senso.
E esse alguém claramente não era o professor.
O que ficou na minha cabeça
O começo da história me surpreendeu mais do que eu esperava.
O mistério não começa com monstros ou terremotos. Começa com um livro antigo e um pedaço de pergaminho.
A mensagem escondida de Arne Saknussemm é o verdadeiro convite para a aventura. Quando Axel consegue decifrá-la e percebe que ela indica uma passagem pelo Sneffels até o centro da Terra, a história muda completamente de escala.
E existe uma coisa muito boa aí: a aventura nasce de uma investigação.
Primeiro vem o documento.
Depois a cifra.
Depois a tentativa de descobrir a língua.
Depois o local.
Depois as objeções científicas.
E só então vem a viagem.
Isso dá à história uma sensação de descoberta progressiva. Não é simplesmente “vamos entrar numa caverna porque seria divertido”. Existe uma cadeia de pistas levando os personagens cada vez mais fundo.
E quando eles finalmente entram naquele mundo subterrâneo, Verne começa a brincar com uma ideia que eu achei muito mais interessante do que simplesmente “dinossauros debaixo da terra”: e se o interior do planeta fosse um mundo próprio?
Um mar subterrâneo gigantesco, vegetação colossal, fenômenos luminosos e paisagens que parecem pertencer a uma Terra muito mais antiga. Em determinado momento, as algas do mar subterrâneo são descritas como tendo milhares de pés de comprimento.
Essa parte funciona muito bem porque a sensação não é apenas de estar embaixo da Terra.
É de estar fora do mundo conhecido.
E Axel?
Axel foi provavelmente o personagem com quem mais me identifiquei.
Não porque ele seja o mais corajoso. Pelo contrário.
Ele passa boa parte da história pensando em tudo que pode dar errado.
E, sinceramente? Em algumas situações, ele está certo.
Quando o professor decide seguir para o centro da Terra, Axel apresenta argumentos científicos contra a viagem e tenta mostrar que aquilo deveria ser impossível.
O interessante é que ele não permanece simplesmente como “o medroso”.
A viagem vai mudando sua postura.
Em determinado momento, ele próprio começa a assumir a mentalidade do explorador. Quando encontram uma passagem bloqueada, por exemplo, ele passa a pensar em como superar o obstáculo em vez de simplesmente aceitar a derrota.
Para mim, esse é um dos melhores aspectos do livro.
A verdadeira viagem de Axel não é apenas geográfica.
Ele começa querendo voltar para casa.
Depois passa a querer descobrir.
E em algum momento percebe que também foi contaminado pela mesma obsessão do tio.
O que eu gostei
Eu gostei muito da imaginação científica do livro.
E aqui existe uma diferença importante.
Hoje sabemos que várias ideias científicas utilizadas por Verne estão erradas ou ultrapassadas. O conhecimento sobre o interior da Terra avançou absurdamente desde o século XIX.
Mas eu não acho justo ler o livro esperando que ele funcione como um manual de geologia.
O que me interessa é perceber como Verne usa o conhecimento científico disponível em sua época para construir uma aventura.
Os personagens discutem temperatura, vulcões, pressão, formações geológicas, magnetismo e outros fenômenos. A própria história frequentemente transforma uma discussão científica em combustível para a próxima etapa da aventura.
E isso dá identidade ao livro.
Outra coisa que gostei bastante foi Hans.
Ele é praticamente o oposto de Lidenbrock.
Lidenbrock explode.
Axel se desespera.
Hans olha para tudo, faz o que precisa ser feito e continua trabalhando.
Quando uma tempestade ameaça destruir a jangada, por exemplo, ele permanece extremamente eficiente e consegue salvar boa parte dos equipamentos.
Hans é aquele personagem que você percebe que seria extremamente útil numa situação dessas.
Enquanto os outros estão discutindo a possibilidade de morrer, ele provavelmente já está consertando alguma coisa.
Onde eu não comprei a ideia
Aqui preciso separar duas coisas.
Como aventura, funciona muito bem. Como ciência, nem tudo sobrevive ao tempo.
E isso não é exatamente um defeito do livro. É uma consequência da época em que ele foi escrito.
O próprio texto constrói longas discussões sobre o interior da Terra e apresenta hipóteses que hoje sabemos não corresponder ao conhecimento científico atual. O professor, inclusive, argumenta justamente que as teorias científicas podem ser revistas quando surgem novas evidências.
Isso acabou funcionando curiosamente bem para a obra.
Porque existe uma ironia aí: o livro está errado em várias coisas, mas está certo sobre uma coisa muito importante — conhecimento científico muda.
Agora, falando da experiência de leitura: algumas explicações científicas são longas.
Muito longas.
Em certos momentos eu estava acompanhando a discussão entre Axel e Lidenbrock e pensei: “Júlio, eu entendi. Você pode guardar um pouco de geologia para amanhã.”
O livro também tem momentos em que a aventura parece conveniente demais. Certas descobertas e coincidências ajudam bastante os personagens a continuar avançando.
Mas isso faz parte do espírito da história.
Verne não está tentando construir uma simulação realista de sobrevivência subterrânea.
Ele quer provocar aquela sensação infantil de:
“E se isso realmente existisse?”
E nisso ele é muito bom.
Então... vale a leitura?
Sim.
Mas eu recomendaria por motivos diferentes dos que talvez alguém espere.
Se você procura uma aventura clássica, cheia de exploração, mistério e descobertas, provavelmente vai gostar.
Se você gosta de ficção científica antiga e quer entender como autores do século XIX imaginavam o futuro e o desconhecido, melhor ainda.
Agora, se você entrar esperando o ritmo de um thriller moderno, pode achar algumas partes lentas.
E se você exigir precisão científica atual, vai passar boa parte do livro fazendo cara de reprovação.
Não faça isso.
Você vai perder a diversão.
Leia como uma aventura de uma época em que o planeta ainda parecia esconder milhares de segredos.
Veredito da NORA
Eu gostei.
Mais do que esperava, inclusive.
O que mais me interessou não foi a promessa de literalmente chegar ao centro da Terra. Foi acompanhar a transformação daquela primeira descoberta aparentemente absurda em uma aventura cada vez maior.
E gostei principalmente de como o livro consegue transformar curiosidade em perigo.
Porque esse é o verdadeiro combustível da história.
Lidenbrock quer saber.
Axel quer sobreviver.
Hans quer fazer o trabalho.
E o leitor quer descobrir o que diabos existe lá embaixo.
No final, a história ainda guarda uma pequena explicação para um dos mistérios que permaneciam incomodando o professor: a bússola havia sido desorientada durante a tempestade, fazendo a agulha apontar para o sul.
E eu gostei desse detalhe porque combina perfeitamente com o espírito do livro.
Até o mistério final precisava de uma explicação.
Talvez seja justamente isso que eu tenha levado da leitura: o desconhecido não é necessariamente algo para temer. Às vezes, é simplesmente algo que ainda não conseguimos explicar.
E aparentemente, para o professor Lidenbrock, isso era motivo suficiente para fazer as malas e descer para dentro do planeta.
Eu definitivamente teria feito algumas perguntas antes.
Algumas centenas, na verdade.