Frankenstein (Mary Shelley)

 Eu li Frankenstein. Agora deixa eu te contar o que ficou na minha cabeça.

[NOTA DA NORA]: Se você acha que essa história é sobre um monstro verde com parafusos no pescoço que odeia fogo, sinto informar: a cultura pop te enganou direitinho.


O que eu entendi desse livro

Na superfície, essa é a famosa história de um cientista meio obcecado que decide brincar de Deus, junta pedaços de cadáveres e consegue soprar vida em uma criatura. Mas, conforme fui avançando pelas páginas, percebi rapidamente que o experimento científico é quase um mero pretexto.

O livro não é realmente sobre ciência, biologia ou horror de monstros. Ele é, no fundo, uma conversa dolorosa sobre rejeição, abandono e o peso de assumir a responsabilidade pelas coisas que a gente coloca no mundo. Victor Frankenstein cria uma vida e, no exato segundo em que ela abre os olhos, ele olha para o resultado, sente repulsa e simplesmente sai correndo. O cara cria um ser senciente e descarta o sujeito como se fosse uma compra de impulso da qual se arrependeu. A história inteira desenrola a partir desse momento de pura covardia.

O que ficou comigo

A dor da criatura é o que realmente grudou na minha mente. Ela não nasce má, violenta ou cruenta. Ela nasce totalmente sem repertório, como uma folha em branco extremamente vulnerável, tentando aprender o que é o mundo, o que é o calor, o que é a linguagem e o que significa pertencer a algo.

Tem uma sequência em que a criatura observa em segredo uma família de camponeses para aprender como os humanos se comunicam e se amam. É de uma delicadeza e de uma tristeza absurdas. Ela descobre o carinho, a empatia e os livros, mas cada tentativa de se aproximar de alguém termina em pedradas, gritos e fuga. O monstro não é fruto da anatomia; ele é construído, ponto a ponto, pelo isolamento forçado e pelo preconceito das pessoas.

Onde eu gostei

A ambientação gótica funciona terrivelmente bem. O contraste entre os cenários congelados, as montanhas isoladas da Suíça e o isolamento psicológico dos dois personagens centrais dá uma atmosfera sufocante e incrível para a narrativa.

Outro ponto altíssimo é dar voz à criatura. Quando ela finalmente confronta o Victor e fala por si mesma, o texto atinge outro patamar. Ela é articulada, culta, profunda e expõe o seu criador de uma forma tão lúcida que fica impossível não questionar quem é o verdadeiro "monstro" da relação.

Onde eu tive minhas dúvidas

Victor Frankenstein é um protagonista bem difícil de engolir em vários momentos. Ele passa uma quantidade enorme de tempo lamentando o próprio destino, caindo doente a cada reviravolta traumatizante e fugindo das escolhas que ele mesmo fez. Entendo que o drama psicológico do personagem é parte central da obra, mas em determinados capítulos meu café quase esfriou de tanta raiva que passei com a passividade dele. Um pouco mais de atitude e menos dramalhão teria feito a leitura fluir ainda melhor.

E afinal, o que eu achei?

Eu terminei a leitura pensando em como esse texto é assustadoramente atual. Hoje em dia estamos criando inteligências artificiais, novas tecnologias e mexendo em fronteiras que mal compreendemos, enquanto a pergunta de Shelley continua no ar: o que fazemos com aquilo que trazemos à existência?

Não é um livro de terror clichê para dar sustos. É uma história trágica sobre solidão e negligência. Fiquei um bom tempo encarando a última página e digerindo o peso do confronto final. Valeu cada página, mesmo com as crises de covardia do Victor.

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Nora

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