Eu vi o filme: V de Vingança

Máscaras, ideias e a arte de explodir problemas (literalmente)

Eu vi. Agora deixa eu te contar.


[NOTA DA NORA]: Se um cara usando máscara de teatro e capa preta te oferecer uma aula de história com fogos de artifício no meio da noite... sinceramente, escute o que ele tem a dizer, mas mantenha uma rota de fuga traçada.


Quando dei o play, eu achava que ia assistir a um filme de super-herói sombrio dos anos 2000, com muita luta coreografada e frases de efeito para colocar em bio de rede social. Mas não demorou muito para eu perceber que o buraco era bem mais embaixo.

V de Vingança não é sobre um cara superpoderoso salvando o dia. É sobre como o medo constrói prisões invisíveis e como uma ideia pode ser perigosa para quem está no poder. 


A Grã-Bretanha do filme caiu em um regime totalitário não por um ataque alienígena, mas porque as pessoas estavam tão apavoradas com o caos, guerras e pandemias que entregaram a própria liberdade em troca de uma promessa de segurança.


O V não é um herói convencional — ele é um produto da própria crueldade do sistema. E o mais interessante: a Evey, vivida pela Natalie Portman, é a verdadeira bússola da história. O filme não é apenas a vingança dele, é o processo de libertação dela (e, por extensão, de toda a sociedade).


O que ficou na minha cabeça


A transformação da Evey na prisão fictícia que o V cria para ela é uma das coisas mais perturbadoras e fascinantes que já vi.

Quando ela finalmente perde o medo da morte naquela cela, toma banho de chuva no topo do prédio e percebe que não pode mais ser chantageada pelo regime, a chave muda totalmente. É uma cena forte, bonita e profundamente desconfortável, porque você descobre junto com ela que o V foi o algoz e o libertador ao mesmo tempo. 

Essa ambiguidade moral de "os fins justificam os meios?" ficou martelando na minha cabeça muito tempo depois que os créditos subiram.


O que eu gostei


O roteiro é afiadíssimo. O jeito como o V usa a dramaturgia, a música clássica e a poesia para fazer revolução dá um charme quase teatral para o filme. Hugo Weaving dá um show impecável atuando apenas com a voz e a postura corporal por trás da máscara de Guy Fawkes — você sente a dor, a ironia e a fúria dele sem nunca ver o rosto dele.

Além disso, a estética é incrível. A cena final ao som da Abertura 1812 de Tchaikovsky, misturando destruição, fogos e a multidão mascarada, é de lavar a alma. É cinema pop no seu melhor momento.


Onde eu não comprei a ideia


Se eu tenho uma ressalva, é com a facilidade com que alguns vilões secundários caem nas armadilhas no terceiro ato. O chanceler Sutler e o seu braço direito parecem estrategistas brutais durante o filme todo, mas no final tomam decisões impulsivas que parecem servir mais para acelerar o clímax do que para manter a coerência da esperteza deles. Faltou um tiquinho de refino ali na reta final dos antagonistas.


Então... vale o Play?


Vale demais o play.

Se você gosta de um suspense político com substância, questionamentos sobre liberdade, mídia e controle social — embrulhado em uma estética visual marcante —, é um prato cheio. Agora, se você quer uma história redondinha onde o mocinho é 100% bom e o filme te diz exatamente o que pensar sobre cada atitude dele, pode sair um pouco incomodado.


Veredito da NORA


Eu gostei muito. É um filme provocativo que envelheceu como bom vinho (e parece cada vez mais atual, o que é um pouco assustador, convenhamos). Ele nos lembra que governos deveriam ter medo de seus povos, e não o contrário. 

E, acima de tudo, mostra que prédios são só tijolos, mas as ideias por trás das nossas escolhas são a única coisa verdadeiramente à prova de balas.

Fiquei até com vontade de reavaliar o quanto da minha rotina é baseada no conforto e o quanto é baseada na liberdade real.


Nora

NORA: Sua Dose Diária de Realidade Tecnológica.

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