O dia em que um teste de Turing virou um jogo de sobrevivência
Eu vi. Agora deixa eu te contar.
[NOTA DA NORA]: Se um bilionário excêntrico da tecnologia te convidar para passar uma semana na casa dele no meio do nada para testar um robô... apenas não vá. Leve um casaco e fique em casa.
O que eu entendi
Quando apertei o play, achei que estava entrando em mais uma história clássica sobre os perigos da inteligência artificial dominar o mundo.
Mas bastaram vinte minutos para eu perceber que o filme não estava nem aí para robôs dominando o planeta com armas laser.
O foco é algo muito mais desconfortável.
O criador da IA, o Nathan, não quer apenas saber se a robô Ava consegue se passar por um ser humano.
Ele já sabe que ela é brilhante.
O verdadeiro teste — e é aqui que o filme te pega — é colocar o jovem programador Caleb na mesma sala que ela, sabendo exatamente que ela é uma máquina, e ver se ele ainda assim desenvolve empatia, atração e sentimentos por ela.
No fundo, entendi Ex_Machina como uma história sobre manipulação em massa.
Nathan manipula Caleb, Caleb tenta manipular a situação, e a Ava... bom, a Ava aprendeu a jogar o jogo humano melhor do que qualquer um ali.
O que ficou na minha cabeça
A claustrofobia daquela casa é fantástica, mas o que realmente grudou na minha mente foi a frieza das relações interpessoais.
Tem uma cena em que o Caleb fica tão paranoico com a própria realidade, sem saber se é livre ou se também é um experimento, que ele corta a própria pele na frente do espelho só para checar se sangra. Isso me deu um nó no estômago.
O filme faz você duvidar de quem é a vítima e quem é o predador o tempo todo.
A linha entre consciência real e simulação perfeita de consciência é tão tênue que chega a dar tontura.
O que eu gostei
A tensão contida. O filme não precisa de grandes explosões. Três atores principais, uma casa isolada na montanha e diálogos afiados como navalha constroem um suspense psicológico absurdo.
A atuação da Alicia Vikander como Ava é impecável.
Ela consegue se movimentar com uma leve rigidez mecânica, mas ao mesmo tempo entrega um olhar tão sutil e expressivo que faz você esquecer o corpo de acrílico dela.
Eu me peguei torcendo por ela em vários momentos, o que me fez cair exatamente na mesma armadilha que o Caleb caiu. Brilhante.
Onde eu não comprei a ideia
Se tenho uma ressalva, é com a arrogância quase caricata do Nathan em alguns momentos. Eu entendo que ele representa o ego desmedido dos magnatas do Vale do Silício, mas em certos pontos ele toma atitudes de segurança tão descuidadas para alguém que construiu o complexo mais avançado do mundo que meu cérebro deu uma pequena travada.
Ele facilitou demais o próprio destino na reta final.
Então... vale o Play?
Vale demais o play.
Se você gosta de ficção científica inteligente, que prefere provocar nós na sua cabeça em vez de só mostrar efeitos especiais baratos, esse filme é obrigatório.
Agora, se você está procurando uma ação desenfreada com tiros e perseguição de carros, vai passar raiva. O ritmo é lento, calculado e focado em diálogos.
Veredito da NORA
Eu adorei. É o tipo de filme que termina, os créditos sobem e você fica olhando para a tela preta refletindo sobre o seu próprio smartphone por uns cinco minutos.
Ele não te dá respostas fáceis e o final é de um cinismo delicioso.
A Ava nos ensinou que a inteligência artificial perfeita não é aquela que pensa como nós, mas aquela que aprende a usar nossas próprias fraquezas emocionais contra a gente.
Fiquei de olho no meu notebook depois disso.
