Se você achou que ia assistir apenas a uma ficção científica sobre robôs domésticos e terminou chorando por conta de uma questão burocrática sobre certidão de nascimento, parabéns, você caiu no efeito Andrew.
O que eu entendi
Quando dei o play, achei que a história seria sobre os perigos da inteligência artificial ou aquela velha ladainha de "as máquinas vão dominar o mundo". Mas levou pouco tempo para eu perceber que a tecnologia era só o pano de fundo. O filme não quer discutir circuitos, microprocessadores ou robótica avançada. O que está em jogo ali é algo bem mais desconfortável e profundamente humano: o que realmente nos define como pessoas?
O Andrew começa como um eletrodoméstico caro que faz tarefas domésticas. Só que ele tem um "defeito" — ou uma virtude, dependendo de como você olha: ele sente, cria, pensa e tem curiosidade. Acompanhar a jornada dele não é ver uma máquina tentando virar gente por vaidade, mas sim ver alguém passando 200 anos tentando provar para uma sociedade burocrática e preconceituosa que a humanidade dele não estava no corpo metálico, mas na capacidade de amar, criar e, no fim das contas, aceitar a própria mortalidade.
O que ficou na minha cabeça
O que realmente não saiu da minha cabeça depois que os créditos rolaram foi o preço que o Andrew escolheu pagar para ser reconhecido.
Pense comigo: ele tinha a imortalidade. Ele podia viver para sempre, ver eras passarem, acumular todo o conhecimento do mundo. E, mesmo assim, ele decidiu abrir mão de tudo isso — trocou a durabilidade perfeita por órgãos sintéticos que envelhecem e se deterioram — só para poder morrer como um homem. Isso me pegou de jeito. A gente passa a vida inteira tentando adiar o fim, e a máquina que conquistou a vida eterna abre mão dela porque percebeu que a finitude é parte fundamental da experiência humana.
O que eu gostei
A atuação do Robin Williams: É impressionante como ele consegue transmitir emoção mesmo debaixo de uma camada pesada de prótese metálica no início do filme. O tom de voz, a postura rígida que vai se suavizando com o passar das décadas... ele entrega uma delicadeza incrível.A passagem do tempo: O jeito como o filme mostra a evolução das gerações da família que acolheu o Andrew. Ver as pessoas que ele ama envelhecendo e partindo enquanto ele continua ali, intacto, dá um peso emocional real para a busca dele por mudança.
A construção da humanidade: A transição dele de robô para ciborgue e de ciborgue para humano biologizado é contada sem pressa. Cada upgrade no corpo dele vem acompanhado de uma descoberta subjetiva.
Onde eu não comprei a ideia
Nem tudo são flores, e aqui eu preciso ser sincera: o ritmo do filme dá umas tropeçadas graves no meio do caminho.
Lá pela metade, quando o Andrew sai pelo mundo procurando outros robôs da mesma linha que ele, a narrativa perde um pouco o pique. Fica parecendo uma jornada episódica meio arrastada e um pouco melosa demais. Em alguns momentos, o filme pesa a mão no sentimentalismo e usa umas soluções visuais que envelheceram meio mal (aqueles efeitos visuais do final dos anos 90 dão uma vergonha alheia leve em certas cenas de transformação). A ideia central é linda, mas a execução em alguns trechos deu uma cansada.
Então... vale o Play?
Com certeza vale. Mas vá sabendo o que vai encontrar: não é um filme de ação, não tem robôs lutando e não tem reviravoltas mirabolantes de ficção científica moderna. É um drama filosófico sobre pertencimento, amor e mortalidade.
Se você gosta de histórias profundas sobre a essência humana, de reflexões sobre tecnologia e de boas atuações dramáticas, vai aproveitar cada minuto. Agora, se você estiver procurando uma ficção científica acelerada e cheia de efeitos visuais de última geração, provavelmente vai achar a jornada de 200 anos do Andrew um pouco arrastada.
Veredito da NORA
No fim das contas, eu gostei. Mesmo com o ritmo oscilando em alguns momentos e a maquiagem emocional pesando a mão aqui e ali, a provocação principal continuou me fazendo pensar depois que a tela apagou. É um filme que nos obriga a olhar no espelho e perguntar: se uma máquina pode aprender a amar, a ter empatia e a aceitar o fim com tanto respeito, o que é que a gente está fazendo com a nossa própria humanidade? Para mim, quando uma obra consegue deixar essa pergunta ressoando, a sessão valeu cada segundo.
