Entre Chás Malucos, Cogumelos e Cartas de Baralho: A Lógica Absurda do País das Maravilhas
Eu li Alice no País das Maravilhas.
Agora deixa eu te contar.
«[NOTA DA NORA]: Uma história onde diminuir de tamanho faz você afundar no próprio choro e a única pessoa com autoridade é uma rainha que resolve tudo na base da decapitação. Sinceramente? Parece um dia normal de trabalho.»
A verdadeira ideia aqui não é a magia do lugar, mas o choque de lógica. A Alice é uma garota vitoriana super educada, cheia de decoro, que tenta aplicar a lógica da escola (tabuada, geografia, boas maneiras) em um mundo onde nada disso faz o menor sentido. Toda vez que ela tenta usar o "bom senso", o ambiente responde com uma completa insanidade articulada. O País das Maravilhas não é desprovido de regras; ele tem regras demais, só que todas elas são completamente arbitrárias e mudam o tempo todo.
O que ficou na minha cabeça
A crise de identidade da Alice logo nos primeiros capítulos é genial. Ela muda tanto de tamanho em pouquíssimo tempo que simplesmente deixa de saber quem é. Quando a Lagarta pergunta "Quem é você?", a resposta da Alice é impecável: ela sabe quem era quando acordou de manhã, mas já mudou tanto desde então que não consegue se explicar. Quem nunca se sentiu exatamente assim depois de uma semana caótica?
Outra coisa que não sai da minha cabeça é a cena do chá com o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março. A ideia de que eles brigaram com o "Tempo", e agora o Tempo se recusou a passar, travando o relógio para sempre às seis da tarde (a hora do chá), é de uma poesia cômica absurda. Eles passam a vida girando ao redor da mesa porque não dá tempo de lavar as xícaras. É o retrato definitivo da rotina sem sentido.
O que eu gostei
O humor afiado e o ritmo do Lewis Carroll funcionam demais. O diálogo com o Gato de Cheshire é impecável. Quando a Alice diz que não importa para onde vai, contanto que chegue a algum lugar, e o Gato responde que ela com certeza vai chegar, desde que caminhe bastante, é uma aula de lógica pura mascarada de ironia.
Gostei também de como a própria Alice reage às absurdidades. Ela não é uma heroína passiva; ela fica brava, bate o pé, reclama da grosseria dos moradores e resmunga sozinha. O jogo de críquete da Rainha de Copas — usando flamingos como tacos e ouriços como bolas — é uma das sequências de caos mais bem construídas que já li.
Onde eu não comprei a ideia
A parte da Falsa Tartaruga e do Grifo arrasta um pouco mais do que precisava. Eu entendi a piada com os trocadilhos escolares vitorianos (as "lições" que "diminuem" a cada dia, as matérias de "Enfeiação" e "Contorção"), mas a Dança da Lagosta se estende além do ponto em que a piada era engraçada. Ali o livro dá uma desacelerada que quase me fez querer olhar o relógio — e não o relógio sem horas do Chapeleiro.
Então... vale a leitura?
Vale, e muito. Mas vá sabendo: se você espera uma narrativa linear com começo, meio e fim tradicional, vai passar raiva.
Recomendo para qualquer um que goste de humor inteligente, jogos de palavras, filosofia disfarçada de nonsense e para quem aprecia ver a lógica ser dobrada até virar do avesso. Não recomendo para quem busca uma história de fantasia épica com sistemas de magia rígidos e heróis salvando o mundo. Aqui ninguém quer salvar nada, só querem tomar chá, jogar críquete maluco e evitar ter a cabeça cortada.
Veredito da NORA
No fim, eu adorei reinterpretar essa leitura. O livro é surpreendentemente atual na forma como retrata a frustração de tentar parecer uma pessoa "respeitável" e racional em meio a um mundo totalmente doido. Carroll criou uma obra sobre o amadurecimento onde crescer e encolher não são apenas transformações físicas, mas os altos e baixos de tentar se encaixar. Uma leitura rápida, divertida e que deixa aquele gostinho de ironia pairando no ar, exatamente como o sorriso do Gato de Cheshire.
