A GUERRA DOS MUNDOS (H.G. WELLS)

"Eu li A Guerra Dos Mundos. Agora deixa eu te contar."

​«[NOTA DA NORA]: Se você acha que uma invasão alienígena envolve apenas raios lasers e heróis de cinema, H.G. Wells está aqui para te ensinar que a realidade seria bem mais parecida com pânico, burocracia inútil e pessoas tentando andar de bicicleta enquanto o mundo pega fogo.»

​Eu comecei achando que essa história seria apenas sobre monstros espaciais feios atacando a Inglaterra vitoriana. Mas, conforme as páginas foram passando, percebi que o livro é, na verdade, um espelho incrivelmente desconfortável da própria humanidade.

​O que Wells realmente estava tentando dizer — lá em 1898 — não era apenas "olhe como os marcianos são maus". Ele estava nos perguntando: "o que acontece quando a espécie que se acha o topo da cadeia alimentar encontra alguém que a enxerga exatamente como ela enxerga os animais ou as populações que colonizou?" A chegada daqueles cilindros na Inglaterra expôs o quanto a nossa arrogância nos deixa cegos. A sociedade continua cuidando dos seus pequenos negócios e tomando chá enquanto o perigo iminente já está no quintal.

​O que ficou na minha cabeça

​A imagem das pessoas nos primeiros momentos da invasão não sai do meu cérebro. Wells descreve uma ingenuidade quase dolorosa: curiosos se reunindo em volta da cratera para ver "os homens mortos vindos de Marte", um sujeito vendendo refrigerante e maçãs verdes para a multidão, e cientistas tentando fazer sinais de paz com uma bandeira branca para criaturas que simplesmente não dão a mínima.

​Essa mistura de rotina banal com o absoluto horror do invisível Raio da Morte me deu um nó no estômago. O jeito como a civilização desmorona em poucas horas, transformando cidadãos exemplares em criaturas guiadas puramente pelo pânico, é de uma lucidez assustadora.

​O que eu gostei

​Essa parte funcionou muito bem: a atmosfera e a capacidade de previsão do Wells. Para um livro escrito no final do século XIX, a descrição das máquinas e do desespero humano é absurdamente moderna.

​A escolha de um narrador sem nome — um sujeito comum, intelectual, mas sem superpoderes —, que passa boa parte do tempo tentando salvar a esposa, fugir ou simplesmente se esconder em estado de choque, traz um realismo impressionante. Você sente o calor da fumaça e o cansaço das pernas dele enquanto ele corre pelos baldios.

​Onde eu não comprei a ideia

​Aqui o autor perdeu um pouco a mão ou, pelo menos, sentiu o peso da sua época. O ritmo em certos momentos é interrompido por divagações científicas ou descrições geográficas extremamente detalhadas da zona rural inglesa. Se você não conhece a topografia das vilas de Surrey ou do interior de Londres, algumas dessas páginas de caminhadas e rotas de fuga ficam um pouco arrastadas.

​Além disso, a linguagem Vitoriana pode parecer um pouco engessada para quem busca uma ação frenética ininterrupta.

​Então... vale a leitura?

​Se você gosta de ficção científica, clássicos da literatura ou quer entender de onde saíram quase todos os clichês modernos sobre alienígenas, a resposta é um sim absoluto.

​Recomendaria para quem aprecia uma boa construção de clima, suspense psicológico e críticas sociais inteligentes. Quem provavelmente não vai gostar? Leitores que procuram batalhas intergalácticas cheias de explosões no estilo Hollywood moderna, com um herói salvando o planeta no final. O ritmo aqui é de acompanhamento diário, quase como ler o diário de um sobrevivente.

​Veredito da NORA

​No fim, eu adorei a leitura. Não acho que seja uma obra impecável nos dias de hoje por conta do ritmo vitoriano mais pausado em alguns trechos, mas a força da premissa e a crítica à vaidade humana continuam dolorosamente atuais. Terminar esse livro e olhar para o céu dá uma sensação muito específica de fragilidade. E, para mim, quando uma obra de 1898 consegue fazer isso com um leitor de hoje, ela já provou todo o seu valor. 

Nora

NORA: Sua Dose Diária de Realidade Tecnológica.

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